Dirigiu-se decidida ao lar: sentou-se no escano - sem perceber a presença da figura que a observava ao canto, disfarçada na parede negra de alcatrão -, desembrulhou a singela criatura, entregando-a ao conforto do regaço. Foi breve o descanso, no entanto: Joana estremeceu bruscamente apertando, com forças desencorajadoras, o pequeno cordeiro que baliu com a força possível de uma leve faúlha. A voz embaciada e seca de emoções, perdidas nos muitos anos já corridos de gargalhadas e alegrias roubadas, que agora vestia de negro o acumular de rugas num corpo invejoso de um outro que, desafiadoramente - sem o saber -, se mostrava à sua frente exibindo a doçura e tranquilidade que um coração puro adorna. " Escusa-te a muitos afetos com esse, que em pouco tempo , seja em carne ou ainda a balir, vai render uns bons dinheiros. Está fraco agora, mas parece de boa raça. " Joana perdeu mais uma gota salgada de alma. Juntava-se a tantas outras derramadas desde que o seu querido pai - adotivo, mas que importa ! - a abandonara à sorte de uma madrasta - adotiva, e aqui sim, importa - que sempre fizera dela o seu Midas, ainda em vida de Leonildo - longe de saber o que se passava debaixo do seu teto (ai dela, Catarina, se ele soubesse!). Racionava-lhe o almoço e não lhe permitia o aquecedor no quarto nos invernos rigorosos: fosse para a cama quando mais não houvesse a fazer. A empregada da casa, já dona de setenta e cinco anos , era agora dama de companhia da Senhora com menores honorários : a pequena tinha bom corpinho e era nova, podia bem tratar das lides domésticas. As manhãs de sábado eram passadas no mercado, desde cedo, a vender a fruta e legumes da quinta; as galinhas e os ovos, cujo trato também era sua responsabilidade. "Pobre rapariga!", comentavam: " Leonildo fê-la princesa em vida, deixou-a borralheira na morte".
Hoje, porém, uma nova força derrubou a fragilidade da nossa heroína. Aquele pequeno exigia a sua coragem. Joana ergueu-se, invadiu os olhos de Catarina; fez-se guerreira armando-se das fraquezas do inimigo: conquistou a casa.
Viver é uma concessão. Saber viver um direito. Felicidade uma busca . Ser feliz é consequência de se aprender a viver . (Não me lembro do autor!)
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Medo
Olá. Vou ser breve e sucinta porque tenho um avião para apanhar.
Estou aqui porque a minha mãe acha que não é normal alguém, com trinta e cinco anos, ser expulsa de uma casa de banho por uma centopeia em corrida desenfreada. É verdade que sou uma medricas: sempre fui. Via uma aranha a correr pela parede abaixo, ao lado da minha cama, gritava e fugia; fazia mais uma asneira, pedia ao meu irmão para assumir as culpas: tinha medo do castigo que concerteza seria duplamente grave, já que tinha acabado de sair de um; era castigada na escola, mentia com medo das consequências em casa. Mentia, mentia, mentia …nem imagino qual terá sido o comprimento do meu nariz! Tudo porque tinha medo: de não agradar, de desagradar, de desiludir, de não iludir, de cair, de sofrer. Aconteceu um dia: decidi que queria ser uma pessoa melhor e naturalmente que a mentira – principalmente com esta taxa de frequência - não poderia, jamais, fazer parte do portefólio das características desse ser. Sabia que perder medos implicava arriscar e eu até era boa nisso: é verdade, medrosa, mas atrevida no risco. Quem diria! Comecei a fazê-lo, a arriscar. Se tinha medo de passar vergonhas e não ser aceite inscrevia-me como modelo de um concurso de cabeleireiros da universidade e ali, à frente de toda a gente, ficava com o aspeto mais ridiculo em que alguma vez me vira. Ajudou-me, anos mais tarde, quando alguém me ameaçou de passar pelo ridículo de apresentar aquele documento à Administração… “vamos lá, apresenta a situação que eu cá me desenrasco com o ridículo”. Muito e muito se passou na minha vida sobre o medo. Não caio no clichê de dizer que faço minha missão enfrentar todos os meus medos. Optei, antes, por conhecer o medo e conhecer-me com medo; decidir que medos tenho que enfrentar e quando os devo e quero enfrentar. Aprendi a sentir a tranquilidade, determinação ou o vazio dentro de mim que o podem acompanhar. Aprendi a ser verdadeira. Sim, essencialmente isso. Continuo a ter medo de sentir aranhas ou centopeias na minha pele: e outros. Devo pegar numa aranha e colocá-la no braço para assim me sentir mais forte? Não, pelo menos para já, não me interessa perder esse medo. Fica.
E eu vou, para o avião: espera-me a vida. Vocês divirtam-se por aqui e aprendam; essencialmente aprendam-se.
Estou aqui porque a minha mãe acha que não é normal alguém, com trinta e cinco anos, ser expulsa de uma casa de banho por uma centopeia em corrida desenfreada. É verdade que sou uma medricas: sempre fui. Via uma aranha a correr pela parede abaixo, ao lado da minha cama, gritava e fugia; fazia mais uma asneira, pedia ao meu irmão para assumir as culpas: tinha medo do castigo que concerteza seria duplamente grave, já que tinha acabado de sair de um; era castigada na escola, mentia com medo das consequências em casa. Mentia, mentia, mentia …nem imagino qual terá sido o comprimento do meu nariz! Tudo porque tinha medo: de não agradar, de desagradar, de desiludir, de não iludir, de cair, de sofrer. Aconteceu um dia: decidi que queria ser uma pessoa melhor e naturalmente que a mentira – principalmente com esta taxa de frequência - não poderia, jamais, fazer parte do portefólio das características desse ser. Sabia que perder medos implicava arriscar e eu até era boa nisso: é verdade, medrosa, mas atrevida no risco. Quem diria! Comecei a fazê-lo, a arriscar. Se tinha medo de passar vergonhas e não ser aceite inscrevia-me como modelo de um concurso de cabeleireiros da universidade e ali, à frente de toda a gente, ficava com o aspeto mais ridiculo em que alguma vez me vira. Ajudou-me, anos mais tarde, quando alguém me ameaçou de passar pelo ridículo de apresentar aquele documento à Administração… “vamos lá, apresenta a situação que eu cá me desenrasco com o ridículo”. Muito e muito se passou na minha vida sobre o medo. Não caio no clichê de dizer que faço minha missão enfrentar todos os meus medos. Optei, antes, por conhecer o medo e conhecer-me com medo; decidir que medos tenho que enfrentar e quando os devo e quero enfrentar. Aprendi a sentir a tranquilidade, determinação ou o vazio dentro de mim que o podem acompanhar. Aprendi a ser verdadeira. Sim, essencialmente isso. Continuo a ter medo de sentir aranhas ou centopeias na minha pele: e outros. Devo pegar numa aranha e colocá-la no braço para assim me sentir mais forte? Não, pelo menos para já, não me interessa perder esse medo. Fica.
E eu vou, para o avião: espera-me a vida. Vocês divirtam-se por aqui e aprendam; essencialmente aprendam-se.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
O meu planeta
A Terra... uma atleta universal, campeã de vitórias no poder de atração e descoberta de outros planetas; misturando, com requintes de paleta de Van Gogh, as cores que a cobriam nesta maquilhagem saborosa de tons laranja, verdes, azuis, brancos. Mercúrio desejava-a, sob os olhares ciumentos de Vénus. Pequeno planeta latino ( pela sua temperatura, entenda-se) envolvia-a apenas com um rápido vestido cintilante, crivado de estrelas picantes, para depois a guiar num intenso tango que terminava com a erupção de algum mega-vulcão terrestre. O que se seguia eram décadas de um planeta azul em estado perfeitamente comatoso de tanta exaustão, entregue aos complacentes cuidados dos eternos amantes desencontrados - o Sol e a Lua- que criavam à sua volta este campo terapêutico de amor inocente e genuíno. Remodelavam-lhe as formas. Adequavam os elementos construtores dentro das inúmeras espécies vivas. Preparavam-na para outro encontro.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
A praia
Ouço vozes nervosas... sinto mãos preocupadas e escorregadias segurarem o meu corpo, desfalecido. Os sons são-me estranhos. Onde estarei? O que querem de mim e porque me carregam assim? A minha imaginação afasta-me da ansiedade, chamando filmes antigos onde figuras canibais levavam o seu jantar pendurado num tronco ...serei eu o almoço de Domingo de alguma família feliz?
Detém-se o movimento e sou suavemente entregue à segurança de um chão tépido que sinto macio na pele. Silêncio ... O sol esconde-se por detrás de uma nuvem para me convidar a acordar; pisco os olhos que abrem preguiçosamente para me mostrarem o cenário que tento descobrir: lábios rasgados de orelha a orelha; olhos felizes lacrimejantes; mãos sobre os peitos aliviados . Quem são e ... quem sou eu para eles?
Abraçam-me: percebem que não me entrego aos seus braços e me mantenho hirto. Distanciam-se...e fico sozinho observando os seus olhares que, desencantados, fogem para se fixarem na minha retaguarda: sigo-os e encontro uma tela gigante, virgem. Quando lhes regresso já não me vêem: são estátuas vivas, brancas, de olhos cerrados. Aguardam...
Deixo-me cair na areia - sim, estou numa pequena praia rodeada de rochas negras disformes -, partilhando o horizonte com as águas valsantes do mar que, com o seu som meditativo, me abandona num labirinto de memórias no centro do qual sei que está a razão deste quadro. Atravessam-me como estrelas cadentes: mas consigo ainda ver-me em frente a um espelho, no meu quarto; lembro-me que pensava:" conheço-te, a minha personagem, mas não sei quem és: ator". Sinto a minha falta: das deixas indiscretas mas tão inocentes que faziam sorrir quem devia sentir-se afrontado...outra memória. Aparece agora, bem delineado, um sorriso maliciosamente infantil que me desafia, num teatral desinteresse, a segui-lo; hesito com a plena consciência de que nada me adianta esse tempo perdido...sei que o vou fazer - e faço: mergulho na escuridão; penso - " vai correr tudo bem".
Deixo o mar: encontrei a razão! Ergo-me no ar e encaro - na companhia do meu coração, agora cheio - o grupo que pacientemente me aguardava. Já não estou sozinho; algumas, poucas, estátuas acordaram e sei bem quem são - agora sei quem me são e quem lhes sou eu . O sorriso também lá está (sem rosto e a fazer-me saborear a mostarda ); guia-me até à tela onde vejo, pintada em aguarela, uma figura confiante, menino adulto vitorioso: sou eu, o ator.
Encontrei-te...
Detém-se o movimento e sou suavemente entregue à segurança de um chão tépido que sinto macio na pele. Silêncio ... O sol esconde-se por detrás de uma nuvem para me convidar a acordar; pisco os olhos que abrem preguiçosamente para me mostrarem o cenário que tento descobrir: lábios rasgados de orelha a orelha; olhos felizes lacrimejantes; mãos sobre os peitos aliviados . Quem são e ... quem sou eu para eles?
Abraçam-me: percebem que não me entrego aos seus braços e me mantenho hirto. Distanciam-se...e fico sozinho observando os seus olhares que, desencantados, fogem para se fixarem na minha retaguarda: sigo-os e encontro uma tela gigante, virgem. Quando lhes regresso já não me vêem: são estátuas vivas, brancas, de olhos cerrados. Aguardam...
Deixo-me cair na areia - sim, estou numa pequena praia rodeada de rochas negras disformes -, partilhando o horizonte com as águas valsantes do mar que, com o seu som meditativo, me abandona num labirinto de memórias no centro do qual sei que está a razão deste quadro. Atravessam-me como estrelas cadentes: mas consigo ainda ver-me em frente a um espelho, no meu quarto; lembro-me que pensava:" conheço-te, a minha personagem, mas não sei quem és: ator". Sinto a minha falta: das deixas indiscretas mas tão inocentes que faziam sorrir quem devia sentir-se afrontado...outra memória. Aparece agora, bem delineado, um sorriso maliciosamente infantil que me desafia, num teatral desinteresse, a segui-lo; hesito com a plena consciência de que nada me adianta esse tempo perdido...sei que o vou fazer - e faço: mergulho na escuridão; penso - " vai correr tudo bem".
Deixo o mar: encontrei a razão! Ergo-me no ar e encaro - na companhia do meu coração, agora cheio - o grupo que pacientemente me aguardava. Já não estou sozinho; algumas, poucas, estátuas acordaram e sei bem quem são - agora sei quem me são e quem lhes sou eu . O sorriso também lá está (sem rosto e a fazer-me saborear a mostarda ); guia-me até à tela onde vejo, pintada em aguarela, uma figura confiante, menino adulto vitorioso: sou eu, o ator.
Encontrei-te...
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