Ouço vozes nervosas... sinto mãos preocupadas e escorregadias segurarem o meu corpo, desfalecido. Os sons são-me estranhos. Onde estarei? O que querem de mim e porque me carregam assim? A minha imaginação afasta-me da ansiedade, chamando filmes antigos onde figuras canibais levavam o seu jantar pendurado num tronco ...serei eu o almoço de Domingo de alguma família feliz?
Detém-se o movimento e sou suavemente entregue à segurança de um chão tépido que sinto macio na pele. Silêncio ... O sol esconde-se por detrás de uma nuvem para me convidar a acordar; pisco os olhos que abrem preguiçosamente para me mostrarem o cenário que tento descobrir: lábios rasgados de orelha a orelha; olhos felizes lacrimejantes; mãos sobre os peitos aliviados . Quem são e ... quem sou eu para eles?
Abraçam-me: percebem que não me entrego aos seus braços e me mantenho hirto. Distanciam-se...e fico sozinho observando os seus olhares que, desencantados, fogem para se fixarem na minha retaguarda: sigo-os e encontro uma tela gigante, virgem. Quando lhes regresso já não me vêem: são estátuas vivas, brancas, de olhos cerrados. Aguardam...
Deixo-me cair na areia - sim, estou numa pequena praia rodeada de rochas negras disformes -, partilhando o horizonte com as águas valsantes do mar que, com o seu som meditativo, me abandona num labirinto de memórias no centro do qual sei que está a razão deste quadro. Atravessam-me como estrelas cadentes: mas consigo ainda ver-me em frente a um espelho, no meu quarto; lembro-me que pensava:" conheço-te, a minha personagem, mas não sei quem és: ator". Sinto a minha falta: das deixas indiscretas mas tão inocentes que faziam sorrir quem devia sentir-se afrontado...outra memória. Aparece agora, bem delineado, um sorriso maliciosamente infantil que me desafia, num teatral desinteresse, a segui-lo; hesito com a plena consciência de que nada me adianta esse tempo perdido...sei que o vou fazer - e faço: mergulho na escuridão; penso - " vai correr tudo bem".
Deixo o mar: encontrei a razão! Ergo-me no ar e encaro - na companhia do meu coração, agora cheio - o grupo que pacientemente me aguardava. Já não estou sozinho; algumas, poucas, estátuas acordaram e sei bem quem são - agora sei quem me são e quem lhes sou eu . O sorriso também lá está (sem rosto e a fazer-me saborear a mostarda ); guia-me até à tela onde vejo, pintada em aguarela, uma figura confiante, menino adulto vitorioso: sou eu, o ator.
Encontrei-te...
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