terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Medo

Olá. Vou ser breve e sucinta porque tenho um avião para apanhar.
Estou aqui porque a minha mãe acha que não é normal alguém, com trinta e cinco anos, ser expulsa de uma casa de banho por uma centopeia em corrida desenfreada. É verdade que sou uma medricas: sempre fui. Via uma aranha a correr pela parede abaixo, ao lado da minha cama, gritava e fugia; fazia mais uma asneira, pedia ao meu irmão para assumir as culpas: tinha medo do castigo que concerteza seria duplamente grave, já que tinha acabado de sair de um; era castigada na escola, mentia com medo das consequências em casa. Mentia, mentia, mentia …nem imagino qual terá sido o comprimento do meu nariz! Tudo porque tinha medo: de não agradar, de desagradar, de desiludir, de não iludir, de cair, de sofrer. Aconteceu um dia: decidi que queria ser uma pessoa melhor e naturalmente que a mentira – principalmente com esta taxa de frequência -  não poderia, jamais, fazer parte do portefólio das características desse ser. Sabia que perder medos implicava arriscar e eu até era boa nisso: é verdade, medrosa, mas atrevida no risco. Quem diria! Comecei a fazê-lo, a arriscar. Se tinha medo de passar vergonhas e não ser aceite inscrevia-me como modelo de um concurso de cabeleireiros da universidade e ali, à frente de toda a gente, ficava com o aspeto mais ridiculo em que alguma vez me vira.  Ajudou-me, anos mais tarde, quando alguém me ameaçou de passar pelo ridículo de apresentar aquele documento à Administração… “vamos lá, apresenta a situação que eu cá me desenrasco com o ridículo”. Muito e muito se passou na minha vida sobre o medo. Não caio no clichê de dizer que faço minha missão enfrentar todos os meus medos. Optei, antes, por conhecer o medo e conhecer-me com medo; decidir que medos tenho que enfrentar e quando os devo e quero enfrentar. Aprendi a sentir a tranquilidade, determinação ou o vazio dentro de mim que o podem acompanhar. Aprendi a ser verdadeira. Sim, essencialmente isso. Continuo a ter medo de sentir aranhas ou centopeias na minha pele: e outros. Devo pegar numa aranha e colocá-la no braço para assim me sentir mais forte? Não, pelo menos para já, não me interessa perder esse medo. Fica.
E eu vou, para o avião: espera-me a vida. Vocês divirtam-se por aqui e aprendam; essencialmente aprendam-se.

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