sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Joana e o cordeiro

Dirigiu-se decidida ao lar: sentou-se no escano - sem perceber a presença da figura que a observava ao canto, disfarçada na parede negra de alcatrão -, desembrulhou a singela criatura, entregando-a ao conforto do regaço. Foi breve o descanso, no entanto: Joana estremeceu bruscamente apertando, com forças desencorajadoras, o pequeno cordeiro que baliu com a força possível de uma leve faúlha. A voz embaciada e seca de emoções, perdidas nos muitos anos já corridos de gargalhadas e alegrias roubadas, que agora vestia de negro o acumular de rugas num corpo invejoso de um outro que, desafiadoramente - sem o saber -, se mostrava à sua frente exibindo a doçura e  tranquilidade que um coração puro adorna. " Escusa-te a muitos afetos com esse, que em pouco tempo , seja em carne ou ainda a balir, vai render uns bons dinheiros. Está fraco agora, mas parece de boa raça. " Joana perdeu mais uma gota salgada de alma. Juntava-se a tantas outras derramadas desde que o seu querido pai - adotivo, mas que importa ! - a abandonara à sorte de uma madrasta - adotiva, e aqui sim, importa - que sempre fizera dela o seu Midas, ainda em vida de Leonildo - longe de saber o que se passava debaixo do seu teto (ai dela, Catarina, se ele soubesse!). Racionava-lhe o almoço e não lhe permitia o aquecedor no quarto nos invernos rigorosos: fosse para a cama quando mais não houvesse a fazer. A empregada da casa, já dona de setenta e cinco anos , era agora dama de companhia da Senhora com menores honorários : a pequena tinha bom corpinho e era nova, podia bem tratar das lides domésticas. As manhãs de sábado eram passadas no mercado, desde cedo, a vender a fruta e legumes da quinta; as galinhas e os ovos, cujo trato também era sua responsabilidade. "Pobre rapariga!", comentavam: " Leonildo fê-la princesa em vida, deixou-a borralheira na morte".
Hoje, porém, uma nova força derrubou a fragilidade da nossa heroína. Aquele pequeno exigia a sua coragem. Joana ergueu-se, invadiu os olhos de Catarina; fez-se guerreira armando-se das fraquezas do inimigo: conquistou a casa.

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