sexta-feira, 6 de abril de 2012

Uma cabine telefónica

Daquela janela podia ver a cabine telefónica . Só que não a via. Ainda não sabia da sua existência porque Sherlock Holmes concentrava em si toda a minha atenção no contexto visual da pequena praça. Bebia um chá, descontraidamente depois da visita à cidade sobre a qual se construira outra cidade para que todos esquecessem a peste. Lembro-me desta história quando por alguma razão se fala de Edimburgo. Mas aquela cabine assalta-me a memória vezes sem conta desde então. No entanto ali,  durante o chá naquele momento, não tinha qualquer importância porque me era inacessivel, invisivel.


 Desembarquei no aeroporto de Edimburgo, Edimbra em inglês, vinda de Dublin. Nada mais tinha marcado a não ser a viagem de regresso a Portugal dali a uma semana. Reservado um quarto para uma noite, cheguei ao centro da cidade onde um muito organizado posto de turismo me levou a duas excursões locais. Uma que durante quatro dias  me levaria às famosas Highlands e a outra que ocuparia o dia que me faltava até chegar o dia da primeira.  Alterei a reserva do quarto para duas noites. A última na casa de hóspedes não foi muito sossegada. Ficara sem o cartão de débito nessa tarde e surpresa das surpresas o cartão de crédito que era azul não estava a funcionar nas caixas automáticas porque havia uma anomalia com o sistema.
A vida tem destas coisas de vez em quando. Faz-se dificil. Obriga-nos a pensar rapidamente e decidir se optamos pelo caminho mais seguro e racional ou o caminho da incerteza, do risco mas potencialmente o de maior prazer.


Wild in Scotland. Estava no escritório a explicar à simpática menina o que acontecera e que não tinha naquele momento a kitty. Tudo por causa de uma cabine telefónica! Como é possivel? É, quando a vida assim o quer. Neste tipo de excursões, as denominadas backpack tours, paga-se o programa (já o tinha feito no posto de turismo) e antes da partida entrega-se ao motorista e guia uma certa quantia, a kitty, que pagará os jantares que são comuns e feitos pelos participantes. " Entra que tudo se vai resolver durante a viagem" disse ela. Podia ter desistido e telefonado à minha irmã para me ajudar a ir ter com ela a Londres onde poderia resolver a confusao dos cartões com calma. Mas entrei, tal como a menina simpática tinha dito. Era uma pequena carrinha de 16 lugares acho. Eu, portuguesa. A rapariga dinamarquesa que tinha tirado um ano para decidir o seu futuro profissional e que agora trabalhava numa biblioteca em Londres. O casal chinês. Um outro casal não me lembro bem de onde, França (?). As 3 amigas americanas. Um australiano, chefe de cozinha. Outro australiano. Ambos tiraram uns meses para conhecer a Europa. E o guia, um rapaz escocês que me perguntou que tipo de portuguesa era porque numa outra excursão tinha participado uma rapariga portuguesa que era muito divertida. Eu não falava muito nem tinha muita piada, nem sempre percebia bem o inglês escocês dele e almoçava sempre sozinha.


Sempre que parávamos para almoçar, o que acontecia numa cidade interessante, eu corria para os bancos e estações de correio e depois para alguma cabine telefónica (não aquela, nem como aquela) para contactar a American Express e assim informá-los que ao contrário do que me tinham dito no dia anterior, a anomalia ainda não estava resolvida porque o cartão continuava a não funcionar nas caixas automáticas.
"Trataremos do assunto com a maior brevidade possivel". Descobri que na Escócia não gostam da American Express. Os bancos não trabalham com eles. Só Visa. Mas eu tinha um cartão azul americano! Mais um telefonema, estava agora na ilha de Skye, que já não é exatamente exatamente uma ilha porque construiram uma estrada ponte que permite o acesso por 4 rodas ou 2.  Aconselharam-me a procurar uma agência da American Express onde poderia comprar dinheiro com o cartão. "Estou numa ilha pequena, num país onde os bancos não trabalham com vocês. Acha que vou encontrar aqui uma agência vossa?". Acalmou-me a menina dinamarquesa que me falou da sua experiência do Gap Year e da sua vontade de escolher a área da saúde entre outras coisas.Depois ia comer qualquer coisa. Não muito, porque o pouco dinheiro com que tinha ficado estava a desaparecer.
Quando não estávamos nas cidades descansava. Não valia a pena pensar no assunto porque nos castelos e  montanhas não havia bancos, nem correios nem cabines telefónicas. Não podia fazer nada e então esquecia tudo isso, apreciava a viagem e divertia-me. Talvez por isso não me lembre bem das cidades mas muto bem do castelo que foi reconstruido a partir de um sonho do arquiteto que mesmo não o conhecendo anteriormente o projetou tal como tinha sido. Ou as duas rochas cuja lenda falava de uma feiticeira que para se vingar do amor de um principe e uma princesa destruira todas as árvores daquele monte. Ou da saudação às Highlands com um gole de whisky e uma qualquer frase em gaélico. Ou do campo da última batalha entre ingleses e escoceses que é ainda hoje motivo de emoção dos escoceses que perderam e viram os vitoriosos desonrarem-se com as piores atrocidades. Um irlandês escolheu o cenário para a batalha, um terreno plano onde os escoceses não poderiam fazer o seu característico e assustador assalto inicial.


Ao final da tarde tratava-se das compras para o jantar e o Chef do grupo cozinhava. Eu ofereci-me para o assistir. Essa tarefa, como também a de lavar a louça dos jantares (que não fazia nesta viagem, mas noutros jantares) são métodos muito úteis para desaparecermos no meio de pequenas multidões.
Foi no último dia, na cidade onde parámos para o último almoço. E já depois de ouvir um ou outro aviso do guia. Entrei no último banco e também não funcionavam com a American Express mas orientaram-me para a estação de correios, a última. Lá poderia utilizar a Union Express. Fartara-me das promessas de resolução da anomalia e os meus pais e irmãos tinham-me falado dessa solução. Nos correios mais uma meta mas não a final. Já não trabalhavam com a Union Express. Seria possivelmente no edificio cinzento no outro lado da rua. O tempo corria para a hora marcada de encontro do grupo e ainda faltava o que ainda fosse possivel comprar para enganar o estômago. No edificio cinzento tinham deixado a Union Express. Mas qual era o problema dos escoceses com o Express? Passara agora para uma pequena agência do outro lado da rua mas noutra direção. Entrei e saí com alguém simpático que apontou da porta para uma casa azul alguns metros abaixo e do outro lado da rua. Entrei. Dei dois passos para dentro mas rapidamente dois passos para fora novamente. Era azul. A casa era azul! E o cartaz da vitrine o que dizia? AMERICAN EXPRESS !!!!!! Vivi ali um dos momentos de insustentável leveza do meu ser. Não faço a minima ideia se trabalhavam com a Union Express ou não. Nunca mais me lembrei disso sequer. Comi bem, entrei na carrinha com um grande sorriso na cara e a kitty  na mão.
Tinha tomado a decisão certa quando entrei na carrinha pela primeira vez.
Acreditei na minha desconfiança de que estava a começar um teste quando recebi da caixa automática a informação de que devido a uma anomalia não era possivel satisfazer o meu pedido. Devia tentar mais tarde. A excursão tinha a duração de 4 dias. Começava na 4ª feira e terminava no sábado. Pensei: "claro, isto vai-se resolver no último dia só no sábado". E assim foi.


Saí do salão de chá e fui telefonar para casa, naquela cabine. Introduzi o cartão de débito na ranhura do telefone que deveria ter um travão para não permitir a entrada total do cartão. Aquele não tinha. Comeu o cartão. Fiquei sem o cartão de débito num telefone público de uma cabine telefónica numa praça na cidade de Edimburgo na Escócia.

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