domingo, 22 de maio de 2016

CURDISTÃO IRAQUIANO

Sabemos, realmente, quando começa e acaba uma viagem?


Poderia dizer que a viagem ao Iraque - Curdistão iraquiano - começou um ano antes, sem o saber.
Foi com uma fotografia, quando pesquisava informações sobre o destino que me esperava, o Irão. Retratava um grupo de crianças da etnia e religião Ezidi: crianças com o cabelo louro queimado e muito despenteadas, como eu. Surgiu a curiosidade, a procura de informação e de contactos, desconhecidos Ezidis com quem comecei a comunicar frequentemente e a conhecer. O desentusiasmo típico dos longos tempos de espera também acabou por vir, até que chegou a altura de pensar na próxima viagem: voltas, voltas e mais voltas...e num clique fugaz, porque não o Iraque? O ânimo dos meus novos amigos Ezidis ajudou na decisão e também a pacificar o que os livros insistiam em atormentar: com a barafunda de eventos que fizeram deste país um dos mais mal falados e temidos e com a constante informação dos fanáticos DAESH tão perto do percurso previsto: Duhok, Hawler (Erbil), Koya, Halabja e Suleimania.
Três meses depois, muitos "tu estás maluca!" depois e sob uma preocupação visível dos meus pais entrava na Turkish Airlines em direção a Hawler: "sais do avião e vais entrar numa sala , mas não ficas aí; apanhas um autocarro que te vai levar a outra sala e aí esperas por um amigo meu que te vai buscar e deixar numa garaji para Duhok". Foram as muito prestáveis instruções do Ali, o couchsurfer com quem ficaria em Koya. E assim foi: dali a algumas horas estava num táxi partilhado a caminho de Duhok e a lembrar-me, muito de repente, que não tinha combinado nada em concreto com ninguém em Duhok! O taxista ia-me perguntar onde me deixava e eu não fazia ideia! Bem, a Awaz tinha-me falado em nos encontrarmos em Lalish (que para mim só havia um e era o templo) e foi isso que respondi ao taxista, que então me passou para outro taxista que me levou a Lalish (templo). Uma hora depois chegámos ao templo e liguei à minha amiga Awaz: afinal o ponto de encontro era no "Lalish Center" (no centro da cidade de Duhok!) , não no "Lalish Temple"! Mais uma hora de regresso e pelo meio ganhei um irmão Peshmerga, mas isso é outra história. Uma semana em Sharia (pertencente a Duhok) em casa da família da minha amiga Awaz: uma família Ezidi!
Curiosamente, também a localidade onde viviam o Sagvan (com quem mais tarde fui ao Templo de Lalish, outra vez, mas desta com uma apresentação e explicação dos inúmeros rituais relacionados com a visita a este templo: lindo!) e o Thamer.





Aqui comecei a perceber, a sentir e a deixar-me envolver pela encantadoramente simples hospitalidade curda: em casa, na rua e no campo de deslocados por onde andei durante três dias a encher-me de risos e beijinhos dos meus doces meninos e meninas ezidis -alguns muito despenteados, como eu - que se deixaram facilmente atrair pelo meu jogo da sardinha.

Na véspera da minha saída de Duhok soube que não poderia ir para casa do Ali em Koya: tinha sofrido um acidente no Irão e estava hospitalizado. Bom, a partir dali estaria sozinha e por minha conta: todos os amigos ficariam em Duhok.

"Deixa a vida acontecer".

E a vida aconteceu...
Hawler: a senhora que me traduziu os versos corânicos que eram entoados numa cerimónia fúnebre e que se despediu com um "Deus deve gostar muito de ti para te ter trazido aqui"; o arqueólogo barbeiro que se ofereceu para me mostrar o museu e no dia seguinte o departamento de Arqueologia da universidade; a simpática Hoz que com as suas duas amigas quiseram partilhar o taxi comigo (e me ofereceram a viagem!) e não me deixaram enquanto não conseguiram que abrissem as portas da mesquita Jalil Khayat.

No táxi partilhado para Suleimania: O Nasih que depois de alguma conversa acabou por me convidar para ficar em sua casa quando fosse a Halabja. E fui e fiquei, muito mimada pelas suas filhas e esposa.

E Suleimania... a cidade que me fez sentir que cheguei a casa: onde me aventurei pelas ruas e ruelas movimentadas, fazendo-me perceber que toda a zona antiga da cidade é um grande bazar; a mesquita que não contava descobrir e que apareceu por acaso, onde fui convidada pelo segurança a subir ao minarete (que vista!); o Sheik, a quem me levaram pensando que procurava o Mulah quando perguntava se podia visitar a Grande Mesquita, e com quem passei horas de conversa; a história da perseguição de Saddam aos Curdos contada na Prisão Vermelha por um guia que se apresentou como "Peshawa, é parecido com o nome do vosso poeta, Pessoa"; o Shalaw do Dolphin, a Mónica,

o Rawsht, o Ali A. e a Fotografia.









E de todo o país: os mil e quinhentos chás (quase todos oferecidos!), e as fabulosas e reconfortantes montanhas! E os tantos amigos que se seguiram a Duhok.


Três meses depois e a viagem ainda não terminou: apesar de já estar em solo português, não há um único dia em que não esteja lá.

Pensando no porquê antes do porquê, porque é que aquela primeira fotografia me chamou a atenção ... continuando por aí, percebo que a viagem não começou um ano antes mas sim muito muito antes.

quinta-feira, 6 de março de 2014

O meu copo

Eu sou o seu preferido. 

Ela guarda-me aqui, neste cantinho protegido do armário preferido dela; que é amarelinho suave ... a cor preferida dela. Não sou o mais utilizado, mas ela visita-me todos os dias. Todos os dias aqueles olhos azuis se perdem em mim, nas memórias que lhe trago: as mãos delicadas da avó Teresa que me abraçavam e levavam ao beijo desejado dos seus lábios, que vertiam na boca o elixir que a entregava ao conforto vitorioso da saúde. Também com ela continuo a receber o calor do sumo rubi, a doçura do mel e o alecrim, por causa de quem tantos olhos choraram...eu chorei: a saudade do sopro de Luis; a saudade da admiração de quem não me queria deixar na montra; a saudade do coração de Eugénia quando me encostou ao peito. 

E ela é a minha preferida.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Ravel

A porta abriu-se: "estás livre, Pedro".
Margarida gelou. Aquela voz. Vinte anos não a fizeram esquecer o som dos seus únicos quatro dias de tudo; terminados, sem promessas, com o rótulo de nada. 
Pedro manteve-se apático, longe de imaginar que ouvia a voz de seu pai. As palavras de um estranho não o arrancavam do desespero de, aos vinte anos, estar num corredor da morte, em Singapura - inocente. 
João expunha-se ali, perigosamente: demonizava o mundo financeiro, implacável e destruidoramente astuto,  era odiado e o seu nome temido. Amor e felicidade eram conceitos proibidos; suicidantes mesmo. Margarida e Pedro eram o seu segredo, ela a sua âncora, sem o saber. Soube-o ali.
Um guarda irrompeu pela sala, agarrou Pedro, arrastou-o até à cela, lançou-lhe um saco vociferando ordens de arrumo. Foram os quinze minutos de Ravel para Pedro.
Abriu-se a porta: o filho entrou para encontrar Margarida perdida em lágrimas - de felicidade, acalmou - e descobrir o que foram os quinze minutos de seus pais.

Folga

Foi-me dada a possibilidade de escrever um texto livre - com duzentas e cinquenta palavras, mas livre de tema. E se o tema que escolher me inspirar de tal maneira que os dedos vão correndo atrás das ideias que rebentam como pipocas, completamente aleatórias, sem avisar o que traz e donde vem a próxima? De tal maneira que, quando der por ela, já lá vão duzentas e cinquenta páginas ; de tal maneira que olhando para trás seja impossível resumir,  porque tudo o que está escrito é importante e tem que ser passado para o mundo. Dizem-me:"tens que ser mais sucinta, dizer mais com menos, limpar o texto de gorduras ...". Não! Não há gorduras...todas estas palavras, todos estes pontos e vírgulas, reticências e travessões estão onde devem estar, onde o cosmos (quem ?)  os pôs: num testemunho bem musculado daquilo que sou, que quero que saibam que sou; daquilo que se vai cozinhando na minha oficina de criatividades. Se tirar aquela palavra, aquele "se", não vai ser o mesmo: a força da ideia não vai passar. 
"Tens que respeitar as regras: é assim". Castradores! 
Enfim...talvez tenham razão, talvez não. Ontem, se calhar não. Hoje, por sorte deles ou simplesmente a científica coincidência, sim. Os meus neurónios não se entendem: atiram-me contra a parede Este, faço ricochete...Sul, não resulta; Norte, não vale a pena; Oeste...demasiado forçado. Entendam-se olhinhos bipedunculados enquanto eu fico aqui, quietinha no meio da sala, à espera de ser chamada ao quadro: hoje a inspiração tirou folga.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Longe do passeio

Alertou-me um taxista irlandês, em Dublin, quando lhe disse que ia alugar um carro: 
- vai-te cum Deus! Lembre-se sempre que o condutor está afastado dos passeios! 

Pouco precisei daquela dica: até chegar a Portugal.

A D. Isaura, boa vizinha sempre pronta para uma boa gaitada e para as minhas boleias, bem reparou na diferença quando regressei das férias de duas semanas: 
- vai-te cum Diabo! Deram-te a volta ao miolo! 
E lá ia contando as novidades da vizinhança. A D. Conceição, coitada, estava no hospital: "vai-te cum Deus, olha que foi dum dia p'ró outro, coitada da pobre". 
Ora então: encosta à direita.
"Vai-te cum Diabo, rapariga! Não vês os carros à tua frente?". 
Esquerda?!
- Deram-te a volta ao miolo aí p'ra fora!
E agora era a Francisca, filha do Joaquim das moitas, que tinha deixado o marido:
- fugiu com outro e deixou-o com o menino nos braços. Vai-te cum Deus, pobres criaturas! Tu atenta aí na rotunda, às avessas como andas... 
Viro à direita...
- E o Manel que comprou outra casa. Tanta casa q...vai-te cum Diabo, mulher! Para onde é que vais?
 À esquerda! Mas o que é que se passa? Isto devia ter acontecido lá!

Pois é, D. Isaura: ponha o miolo a pensar assim numa semana, depois o contrário de assim, na outra semana, e depois o contrário do contrário do assim na terceira semana e veja a volta que dá!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Elvis, inspetor de Finanças

O que há a pensar sobre o que se diria num encontro entre o renascido Elvis e um inspetor  de Finanças, será uma óbvia panóplia de infrações e fugas e dívidas normais para um morto que não morreu, afinal de contas, mas que se esqueceu de informar …ou, como ele ali estava a contar, esqueceu-se de aparecer no funeral a dizer: “olá!”. Incrível mesmo é como eu, estranhamente para mim e par quem me conhece, me estava a deixar seduzir por aquele olhar de menino triste que mantinha; ou como se diz lá pela aldeia, olhar de carneirinho mal morto que intimida qualquer um, por muito pouco amanteigado que seja o seu coração. Mas e se, atentem bem nisto…e se à vossa frente estivesse O Elvis Presley: o Rei, a oferecer-se para ser inspetor de Finanças? Isso mesmo…isso mesmo que acabaram de ler! “Porventura acha que assim conseguirá perdão fiscal? É que tal ideia nunca me poderia ocorrer! Nunca!”.

Não. Não era isso. Mas para não restarem dúvidas quis imediatamente conhecer, junto a mim - e fez questão que fosse sempre eu  a resolver o seu processo -, o valor de todas as coimas e dívidas a que estava sujeito para avançarmos com a sua formação como inspetor. Faria ele ideia do que é ser um inspetor de Finanças? Que olhasse para mim e visse; olhasse e ouvisse os outros à minha volta e percebesse; que fosse eu por um dia e sentisse. Pois foi exatamente o que fez nos dias que se seguiram. A minha sombra cantarolava, galanteava e encantava os faltosos perseguidos. Comecei - começámos – a tomar uns cafezitos com este ou aquele. A conviver com devedores que se desfaziam em lágrimas – mas lágrimas gordas, verdadeiras!! – contando as suas desgraças e como se tinham deixado enganar pelos bancos; ou a entrar em animadas conversas lavadas em cerveja – ele…eu, sumo e só!- com outros que atacavam o ditador governo que lhes castrava o sonho de viver livremente.

Anos depois - e agora sim, Elvis o Rei, morreu mesmo: mesmo! – lembro-me que foi o meu melhor ano em cobrança pacífica de dívidas. Rejeitei uma promoção; despedi-me e dediquei-me ao verdadeiro amor da minha vida: a música.

Que outro resultado poderia ser mais previsível que uma conversa entre um inspetor de Finanças e o mais famoso roqueiro do mundo que devendo estar morto, não estava?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A carta de amor mais ridícula do mundo

Sentia-me observado, já há algum tempo, por aqueles olhos de café amendoado; encorpado com a intensidade dos grãos de tranquilidade que correm no sangue de quem, finalmente, chegou a casa - ou como os ingleses tão bem dizem: home. Sorriu suavemente, sabendo exatamente o que lhe queria dizer: e essa foi a mensagem que tatuou na minha pele frágil e enrugada de simples e tosco guardanapo de papel. 

           Não preciso de ti.
              A minha vida não acaba se não estiveres.
                Não és o ar que respiro.

                  Amo-te...finalmente, amo-te.

Amarrotou-me numa pequena bola e, quando ela chegou, abriu-lhe a mão e entregou-me com um beijo: " para quando chegares a casa", disse.
Ela correu, apressada, para casa - felizmente, que me estrangulava de tanto apertar! Leu-me, verteu-me uma gota gorda de incredulidade feliz e num dos encontros que se seguiram respondeu-lhe: "sim, aceito".