Foi com uma fotografia, quando pesquisava informações sobre o destino que me esperava, o Irão. Retratava um grupo de crianças da etnia e religião Ezidi: crianças com o cabelo louro queimado e muito despenteadas, como eu. Surgiu a curiosidade, a procura de informação e de contactos, desconhecidos Ezidis com quem comecei a comunicar frequentemente e a conhecer. O desentusiasmo típico dos longos tempos de espera também acabou por vir, até que chegou a altura de pensar na próxima viagem: voltas, voltas e mais voltas...e num clique fugaz, porque não o Iraque? O ânimo dos meus novos amigos Ezidis ajudou na decisão e também a pacificar o que os livros insistiam em atormentar: com a barafunda de eventos que fizeram deste país um dos mais mal falados e temidos e com a constante informação dos fanáticos DAESH tão perto do percurso previsto: Duhok, Hawler (Erbil), Koya, Halabja e Suleimania.
Três meses depois, muitos "tu estás maluca!" depois e sob uma preocupação visível dos meus pais entrava na Turkish Airlines em direção a Hawler: "sais do avião e vais entrar numa sala , mas não ficas aí; apanhas um autocarro que te vai levar a outra sala e aí esperas por um amigo meu que te vai buscar e deixar numa garaji para Duhok". Foram as muito prestáveis instruções do Ali, o couchsurfer com quem ficaria em Koya. E assim foi: dali a algumas horas estava num táxi partilhado a caminho de Duhok e a lembrar-me, muito de repente, que não tinha combinado nada em concreto com ninguém em Duhok! O taxista ia-me perguntar onde me deixava e eu não fazia ideia! Bem, a Awaz tinha-me falado em nos encontrarmos em Lalish (que para mim só havia um e era o templo) e foi isso que respondi ao taxista, que então me passou para outro taxista que me levou a Lalish (templo). Uma hora depois chegámos ao templo e liguei à minha amiga Awaz: afinal o ponto de encontro era no "Lalish Center" (no centro da cidade de Duhok!) , não no "Lalish Temple"! Mais uma hora de regresso e pelo meio ganhei um irmão Peshmerga, mas isso é outra história. Uma semana em Sharia (pertencente a Duhok) em casa da família da minha amiga Awaz: uma família Ezidi!Curiosamente, também a localidade onde viviam o Sagvan (com quem mais tarde fui ao Templo de Lalish, outra vez, mas desta com uma apresentação e explicação dos inúmeros rituais relacionados com a visita a este templo: lindo!) e o Thamer.


Aqui comecei a perceber, a sentir e a deixar-me envolver pela encantadoramente simples hospitalidade curda: em casa, na rua e no campo de deslocados por onde andei durante três dias a encher-me de risos e beijinhos dos meus doces meninos e meninas ezidis -alguns muito despenteados, como eu - que se deixaram facilmente atrair pelo meu jogo da sardinha.
Na véspera da minha saída de Duhok soube que não poderia ir para casa do Ali em Koya: tinha sofrido um acidente no Irão e estava hospitalizado. Bom, a partir dali estaria sozinha e por minha conta: todos os amigos ficariam em Duhok.
"Deixa a vida acontecer".
E a vida aconteceu...
Hawler: a senhora que me traduziu os versos corânicos que eram entoados numa cerimónia fúnebre e que se despediu com um "Deus deve gostar muito de ti para te ter trazido aqui"; o arqueólogo barbeiro que se ofereceu para me mostrar o museu e no dia seguinte o departamento de Arqueologia da universidade; a simpática Hoz que com as suas duas amigas quiseram partilhar o taxi comigo (e me ofereceram a viagem!) e não me deixaram enquanto não conseguiram que abrissem as portas da mesquita Jalil Khayat.
No táxi partilhado para Suleimania: O Nasih que depois de alguma conversa acabou por me convidar para ficar em sua casa quando fosse a Halabja. E fui e fiquei, muito mimada pelas suas filhas e esposa.
E Suleimania... a cidade que me fez sentir que cheguei a casa: onde me aventurei pelas ruas e ruelas movimentadas, fazendo-me perceber que toda a zona antiga da cidade é um grande bazar; a mesquita que não contava descobrir e que apareceu por acaso, onde fui convidada pelo segurança a subir ao minarete (que vista!); o Sheik, a quem me levaram pensando que procurava o Mulah quando perguntava se podia visitar a Grande Mesquita, e com quem passei horas de conversa; a história da perseguição de Saddam aos Curdos contada na Prisão Vermelha por um guia que se apresentou como "Peshawa, é parecido com o nome do vosso poeta, Pessoa"; o Shalaw do Dolphin, a Mónica,

o Rawsht, o Ali A. e a Fotografia.E de todo o país: os mil e quinhentos chás (quase todos oferecidos!), e as fabulosas e reconfortantes montanhas! E os tantos amigos que se seguiram a Duhok.
Três meses depois e a viagem ainda não terminou: apesar de já estar em solo português, não há um único dia em que não esteja lá.
Pensando no porquê antes do porquê, porque é que aquela primeira fotografia me chamou a atenção ... continuando por aí, percebo que a viagem não começou um ano antes mas sim muito muito antes.







