segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Ravel

A porta abriu-se: "estás livre, Pedro".
Margarida gelou. Aquela voz. Vinte anos não a fizeram esquecer o som dos seus únicos quatro dias de tudo; terminados, sem promessas, com o rótulo de nada. 
Pedro manteve-se apático, longe de imaginar que ouvia a voz de seu pai. As palavras de um estranho não o arrancavam do desespero de, aos vinte anos, estar num corredor da morte, em Singapura - inocente. 
João expunha-se ali, perigosamente: demonizava o mundo financeiro, implacável e destruidoramente astuto,  era odiado e o seu nome temido. Amor e felicidade eram conceitos proibidos; suicidantes mesmo. Margarida e Pedro eram o seu segredo, ela a sua âncora, sem o saber. Soube-o ali.
Um guarda irrompeu pela sala, agarrou Pedro, arrastou-o até à cela, lançou-lhe um saco vociferando ordens de arrumo. Foram os quinze minutos de Ravel para Pedro.
Abriu-se a porta: o filho entrou para encontrar Margarida perdida em lágrimas - de felicidade, acalmou - e descobrir o que foram os quinze minutos de seus pais.

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