O que há a pensar sobre o que se diria num encontro entre o renascido Elvis e um inspetor de Finanças, será uma óbvia panóplia de infrações e fugas e dívidas normais para um morto que não morreu, afinal de contas, mas que se esqueceu de informar …ou, como ele ali estava a contar, esqueceu-se de aparecer no funeral a dizer: “olá!”. Incrível mesmo é como eu, estranhamente para mim e par quem me conhece, me estava a deixar seduzir por aquele olhar de menino triste que mantinha; ou como se diz lá pela aldeia, olhar de carneirinho mal morto que intimida qualquer um, por muito pouco amanteigado que seja o seu coração. Mas e se, atentem bem nisto…e se à vossa frente estivesse O Elvis Presley: o Rei, a oferecer-se para ser inspetor de Finanças? Isso mesmo…isso mesmo que acabaram de ler! “Porventura acha que assim conseguirá perdão fiscal? É que tal ideia nunca me poderia ocorrer! Nunca!”.
Não. Não era isso. Mas para não restarem dúvidas quis imediatamente conhecer, junto a mim - e fez questão que fosse sempre eu a resolver o seu processo -, o valor de todas as coimas e dívidas a que estava sujeito para avançarmos com a sua formação como inspetor. Faria ele ideia do que é ser um inspetor de Finanças? Que olhasse para mim e visse; olhasse e ouvisse os outros à minha volta e percebesse; que fosse eu por um dia e sentisse. Pois foi exatamente o que fez nos dias que se seguiram. A minha sombra cantarolava, galanteava e encantava os faltosos perseguidos. Comecei - começámos – a tomar uns cafezitos com este ou aquele. A conviver com devedores que se desfaziam em lágrimas – mas lágrimas gordas, verdadeiras!! – contando as suas desgraças e como se tinham deixado enganar pelos bancos; ou a entrar em animadas conversas lavadas em cerveja – ele…eu, sumo e só!- com outros que atacavam o ditador governo que lhes castrava o sonho de viver livremente.
Anos depois - e agora sim, Elvis o Rei, morreu mesmo: mesmo! – lembro-me que foi o meu melhor ano em cobrança pacífica de dívidas. Rejeitei uma promoção; despedi-me e dediquei-me ao verdadeiro amor da minha vida: a música.
Que outro resultado poderia ser mais previsível que uma conversa entre um inspetor de Finanças e o mais famoso roqueiro do mundo que devendo estar morto, não estava?
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