"Vai ser no último dia: vai ser, eu sei que vai ser ; é sempre! Não é?"
Aquela ranhura maldita, de telefone de cabine enfeitiçado, acabara de me roubar o cartão de débito! Estranho? Sim, também pensei...mas a acontecer, só mesmo ali debaixo da estátua do mais brilhante detetive da história do crime: o do chapéu e cachimbo. Adiante; ninguém viaja sem cartão de crédito nos dias que correm, certo? Mas também ninguém se lembra que esse mesmo indivíduozinho - azul - de plástico vai ser bloqueado nas ATMs porque houve um erro no sistema: e exatamente no dia em que uma cabine telefónica resolveu canibalizar o outro individuozinho - o amarelo. "Dinheiro vivo, tenho? Quanto tenho?" A residência estava assegurada, mas e a excursão? Cheguei a horas ao ponto de encontro; expliquei o sucedido, contando com o expectável: "temos pena!". Fui surpreendido por um simpático: " há-de-se resolver, entra e pagas durante a viagem". Oh! Simpáticos e otimistas! Mais do que eu. Por entre lendas de bruxas destruidoras de finais felizes, familias Macbiscoitos que traíram a nação, rochas chorosas por crimes sangrentos de séculos passados, saudações às terras altas regadas com whisky e monstros dos lagos; serpenteavam corridas desesperadas a bancos e correios, procuras infrutíferas de casas azuis - a voz ao telefone informara-me de que devia procurar uma casa azul -, na tentativa de voltar a sentir aqueles pequenos retângulos de papel ou as tilintantes moedas nas mãos ansiosas. Não, não, não ... não. Ninguém. Ao quarto dia - o último e na última cidade -, já sob os olhares e comentários recriminatórios do guia, com um fugaz raio de esperança desacreditada, entrei nos correios: não, talvez ali. Saltei para ali, o prédio em frente, subi escadas, dirigi-me ao balcão: não, ali. Desci escadas, atravessei a rua para ali: não, tente ali na casa azul. Distraí-me, não percebi aqui o sinal. Atravessei a rua, voei por entre sons distantes de passos distraídos de mim, entrei ali: um passo dentro, uma hesitação enduvidada, um passo estranho fora, olhei a parede. Azul!
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