"ACREDITA, Susana!"
O esforço foi surreal: manter-se ali, firme - que assim o exigia a máquina -, com olhar fixo ; lutando contra o tremor que tomara conta das suas entranhas perante tamanho horror. Obrigava-se a pintar, detalhadamente - e seria apenas uma fotografia, que alguém precisava desesperadamente de si -, tudo o que estava representado naquela imagem, da qual também ela fazia parte: em sentimentos e sensações. Aquele rosto chocolate, pertença de um tronco vestido de serapilheira desgastada e perninhas nuas lamacentas, prendeu-a e silenciou as rajadas e gritos de agonia que se estilhaçavam à sua volta. Lágrimas caiam-lhe descontroladamente enquanto as mãos seguravam outra de um corpo morto ensanguentado, mais velho; desesperava com a inanimação da única pessoa que o poderia proteger daquele cenário, chamava por ele, sacudia-o: tinha que acordar, tinham que sair dali! "Vamos, levanta-te!". O click surgiu, com precisão, no momento em que as emoções desabaram enchendo-a daquilo que a fez leoa protetora. Lançou-se em corrida e agarrou o corpito indefeso, agora ainda mais assustado, vendo-se arrancado daquela mão.
"ACREDITA, Susana!". Eram estas palavras a sua força: ditas com a certeza de um coração sábio, anos antes entres as ruínas de um templo.
Abraçou-o e acarinhou-o tentando transportá-lo novamente à lembrança do calor paternal que, tão violentamente, perdera. Ele, exausto, deixou-se proteger. Olhou-a, aninhou-se e dormiu. Ela, segura e confortada, deixou-se ocupar. Olhou-o, aconchegou-o ... e acreditou.
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