quinta-feira, 6 de março de 2014

O meu copo

Eu sou o seu preferido. 

Ela guarda-me aqui, neste cantinho protegido do armário preferido dela; que é amarelinho suave ... a cor preferida dela. Não sou o mais utilizado, mas ela visita-me todos os dias. Todos os dias aqueles olhos azuis se perdem em mim, nas memórias que lhe trago: as mãos delicadas da avó Teresa que me abraçavam e levavam ao beijo desejado dos seus lábios, que vertiam na boca o elixir que a entregava ao conforto vitorioso da saúde. Também com ela continuo a receber o calor do sumo rubi, a doçura do mel e o alecrim, por causa de quem tantos olhos choraram...eu chorei: a saudade do sopro de Luis; a saudade da admiração de quem não me queria deixar na montra; a saudade do coração de Eugénia quando me encostou ao peito. 

E ela é a minha preferida.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Ravel

A porta abriu-se: "estás livre, Pedro".
Margarida gelou. Aquela voz. Vinte anos não a fizeram esquecer o som dos seus únicos quatro dias de tudo; terminados, sem promessas, com o rótulo de nada. 
Pedro manteve-se apático, longe de imaginar que ouvia a voz de seu pai. As palavras de um estranho não o arrancavam do desespero de, aos vinte anos, estar num corredor da morte, em Singapura - inocente. 
João expunha-se ali, perigosamente: demonizava o mundo financeiro, implacável e destruidoramente astuto,  era odiado e o seu nome temido. Amor e felicidade eram conceitos proibidos; suicidantes mesmo. Margarida e Pedro eram o seu segredo, ela a sua âncora, sem o saber. Soube-o ali.
Um guarda irrompeu pela sala, agarrou Pedro, arrastou-o até à cela, lançou-lhe um saco vociferando ordens de arrumo. Foram os quinze minutos de Ravel para Pedro.
Abriu-se a porta: o filho entrou para encontrar Margarida perdida em lágrimas - de felicidade, acalmou - e descobrir o que foram os quinze minutos de seus pais.

Folga

Foi-me dada a possibilidade de escrever um texto livre - com duzentas e cinquenta palavras, mas livre de tema. E se o tema que escolher me inspirar de tal maneira que os dedos vão correndo atrás das ideias que rebentam como pipocas, completamente aleatórias, sem avisar o que traz e donde vem a próxima? De tal maneira que, quando der por ela, já lá vão duzentas e cinquenta páginas ; de tal maneira que olhando para trás seja impossível resumir,  porque tudo o que está escrito é importante e tem que ser passado para o mundo. Dizem-me:"tens que ser mais sucinta, dizer mais com menos, limpar o texto de gorduras ...". Não! Não há gorduras...todas estas palavras, todos estes pontos e vírgulas, reticências e travessões estão onde devem estar, onde o cosmos (quem ?)  os pôs: num testemunho bem musculado daquilo que sou, que quero que saibam que sou; daquilo que se vai cozinhando na minha oficina de criatividades. Se tirar aquela palavra, aquele "se", não vai ser o mesmo: a força da ideia não vai passar. 
"Tens que respeitar as regras: é assim". Castradores! 
Enfim...talvez tenham razão, talvez não. Ontem, se calhar não. Hoje, por sorte deles ou simplesmente a científica coincidência, sim. Os meus neurónios não se entendem: atiram-me contra a parede Este, faço ricochete...Sul, não resulta; Norte, não vale a pena; Oeste...demasiado forçado. Entendam-se olhinhos bipedunculados enquanto eu fico aqui, quietinha no meio da sala, à espera de ser chamada ao quadro: hoje a inspiração tirou folga.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Longe do passeio

Alertou-me um taxista irlandês, em Dublin, quando lhe disse que ia alugar um carro: 
- vai-te cum Deus! Lembre-se sempre que o condutor está afastado dos passeios! 

Pouco precisei daquela dica: até chegar a Portugal.

A D. Isaura, boa vizinha sempre pronta para uma boa gaitada e para as minhas boleias, bem reparou na diferença quando regressei das férias de duas semanas: 
- vai-te cum Diabo! Deram-te a volta ao miolo! 
E lá ia contando as novidades da vizinhança. A D. Conceição, coitada, estava no hospital: "vai-te cum Deus, olha que foi dum dia p'ró outro, coitada da pobre". 
Ora então: encosta à direita.
"Vai-te cum Diabo, rapariga! Não vês os carros à tua frente?". 
Esquerda?!
- Deram-te a volta ao miolo aí p'ra fora!
E agora era a Francisca, filha do Joaquim das moitas, que tinha deixado o marido:
- fugiu com outro e deixou-o com o menino nos braços. Vai-te cum Deus, pobres criaturas! Tu atenta aí na rotunda, às avessas como andas... 
Viro à direita...
- E o Manel que comprou outra casa. Tanta casa q...vai-te cum Diabo, mulher! Para onde é que vais?
 À esquerda! Mas o que é que se passa? Isto devia ter acontecido lá!

Pois é, D. Isaura: ponha o miolo a pensar assim numa semana, depois o contrário de assim, na outra semana, e depois o contrário do contrário do assim na terceira semana e veja a volta que dá!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Elvis, inspetor de Finanças

O que há a pensar sobre o que se diria num encontro entre o renascido Elvis e um inspetor  de Finanças, será uma óbvia panóplia de infrações e fugas e dívidas normais para um morto que não morreu, afinal de contas, mas que se esqueceu de informar …ou, como ele ali estava a contar, esqueceu-se de aparecer no funeral a dizer: “olá!”. Incrível mesmo é como eu, estranhamente para mim e par quem me conhece, me estava a deixar seduzir por aquele olhar de menino triste que mantinha; ou como se diz lá pela aldeia, olhar de carneirinho mal morto que intimida qualquer um, por muito pouco amanteigado que seja o seu coração. Mas e se, atentem bem nisto…e se à vossa frente estivesse O Elvis Presley: o Rei, a oferecer-se para ser inspetor de Finanças? Isso mesmo…isso mesmo que acabaram de ler! “Porventura acha que assim conseguirá perdão fiscal? É que tal ideia nunca me poderia ocorrer! Nunca!”.

Não. Não era isso. Mas para não restarem dúvidas quis imediatamente conhecer, junto a mim - e fez questão que fosse sempre eu  a resolver o seu processo -, o valor de todas as coimas e dívidas a que estava sujeito para avançarmos com a sua formação como inspetor. Faria ele ideia do que é ser um inspetor de Finanças? Que olhasse para mim e visse; olhasse e ouvisse os outros à minha volta e percebesse; que fosse eu por um dia e sentisse. Pois foi exatamente o que fez nos dias que se seguiram. A minha sombra cantarolava, galanteava e encantava os faltosos perseguidos. Comecei - começámos – a tomar uns cafezitos com este ou aquele. A conviver com devedores que se desfaziam em lágrimas – mas lágrimas gordas, verdadeiras!! – contando as suas desgraças e como se tinham deixado enganar pelos bancos; ou a entrar em animadas conversas lavadas em cerveja – ele…eu, sumo e só!- com outros que atacavam o ditador governo que lhes castrava o sonho de viver livremente.

Anos depois - e agora sim, Elvis o Rei, morreu mesmo: mesmo! – lembro-me que foi o meu melhor ano em cobrança pacífica de dívidas. Rejeitei uma promoção; despedi-me e dediquei-me ao verdadeiro amor da minha vida: a música.

Que outro resultado poderia ser mais previsível que uma conversa entre um inspetor de Finanças e o mais famoso roqueiro do mundo que devendo estar morto, não estava?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A carta de amor mais ridícula do mundo

Sentia-me observado, já há algum tempo, por aqueles olhos de café amendoado; encorpado com a intensidade dos grãos de tranquilidade que correm no sangue de quem, finalmente, chegou a casa - ou como os ingleses tão bem dizem: home. Sorriu suavemente, sabendo exatamente o que lhe queria dizer: e essa foi a mensagem que tatuou na minha pele frágil e enrugada de simples e tosco guardanapo de papel. 

           Não preciso de ti.
              A minha vida não acaba se não estiveres.
                Não és o ar que respiro.

                  Amo-te...finalmente, amo-te.

Amarrotou-me numa pequena bola e, quando ela chegou, abriu-lhe a mão e entregou-me com um beijo: " para quando chegares a casa", disse.
Ela correu, apressada, para casa - felizmente, que me estrangulava de tanto apertar! Leu-me, verteu-me uma gota gorda de incredulidade feliz e num dos encontros que se seguiram respondeu-lhe: "sim, aceito".

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A história do cartão, depois do corte (cento e tal palavras)

"Vai ser no último dia, não vai? Eu sei: sempre foi!"

Um telefone de cabine roubou-me o cartão de débito! Estranho? Mesmo ali, debaixo da estátua de Sherlock. Tinha o crédito azul: não falharia. Falhou. Sem dinheiro. Arranquei na excursão de quatro dias após um simpático: "entra e pagas durante a viagem". Whiskie, Macs e monstros acompanharam maratonas desesperadas a bancos e correios, procuras infrutíferas de casas azuis. Não. Ninguém. 

No último dia - última cidade -, num ténue raio de esperança desacreditada, entrei nos correios: não. Banco: não, tente ali. Tentei: não, na casa azul. Distraí-me aqui do sinal. Entrei: uma hesitação enduvidada. Saí: olhei a parede. Azul! 

A história do cartão antes do corte


"Vai ser no último dia: vai ser, eu sei que vai ser ; é sempre! Não é?"

Aquela ranhura maldita, de telefone de cabine enfeitiçado, acabara de me roubar o cartão de débito! Estranho? Sim, também pensei...mas a acontecer, só mesmo ali debaixo da estátua do mais brilhante detetive da história do crime: o do chapéu e cachimbo. Adiante; ninguém viaja sem cartão de crédito nos dias que correm, certo? Mas também ninguém se lembra que esse mesmo indivíduozinho - azul - de plástico vai ser bloqueado nas ATMs porque houve um erro no sistema: e exatamente no dia em que uma cabine telefónica resolveu canibalizar o outro individuozinho - o amarelo. "Dinheiro vivo, tenho? Quanto tenho?" A residência estava assegurada, mas e a excursão? Cheguei a horas ao ponto de encontro; expliquei o sucedido, contando com o expectável: "temos pena!". Fui surpreendido por um simpático: " há-de-se resolver, entra e pagas durante a viagem". Oh! Simpáticos e otimistas! Mais do que eu. Por entre lendas de bruxas destruidoras de finais felizes, familias Macbiscoitos que traíram a nação, rochas chorosas por crimes sangrentos de séculos passados, saudações às terras altas regadas com whisky e monstros dos lagos; serpenteavam corridas desesperadas a bancos e correios, procuras infrutíferas de casas azuis - a voz ao telefone informara-me de que devia procurar uma casa azul -, na tentativa de voltar a sentir aqueles pequenos retângulos de papel ou as tilintantes moedas nas mãos ansiosas. Não, não, não ... não. Ninguém. Ao quarto dia - o último e na última cidade -, já sob os olhares e comentários recriminatórios do guia, com um fugaz raio de esperança desacreditada, entrei nos correios: não, talvez ali. Saltei para ali, o prédio em frente, subi escadas, dirigi-me ao balcão: não, ali. Desci escadas, atravessei a rua para ali: não, tente ali na casa azul. Distraí-me, não percebi aqui o sinal. Atravessei a rua, voei por entre sons distantes de passos distraídos de mim,  entrei ali: um passo dentro, uma hesitação enduvidada, um passo estranho fora, olhei a parede. Azul! 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Congo ... uma fotografia

"ACREDITA, Susana!"
O esforço foi surreal: manter-se ali, firme - que assim o exigia a máquina -, com olhar fixo ; lutando contra o tremor que tomara conta das suas entranhas perante tamanho horror. Obrigava-se a pintar, detalhadamente - e seria apenas uma fotografia, que alguém precisava desesperadamente de si -, tudo o que estava representado naquela imagem, da qual também ela fazia parte: em sentimentos e sensações. Aquele rosto chocolate, pertença de um tronco vestido de serapilheira desgastada e perninhas nuas lamacentas, prendeu-a e silenciou as rajadas e gritos de agonia que se estilhaçavam à sua volta. Lágrimas caiam-lhe descontroladamente enquanto as mãos seguravam outra de um corpo morto ensanguentado, mais velho; desesperava com a inanimação da única pessoa que o poderia proteger daquele cenário, chamava por ele, sacudia-o: tinha que acordar, tinham que sair dali! "Vamos, levanta-te!". O click surgiu, com precisão, no momento em que as emoções desabaram enchendo-a daquilo que a fez leoa protetora. Lançou-se em corrida e agarrou o corpito indefeso, agora ainda mais assustado, vendo-se arrancado daquela mão.
 "ACREDITA, Susana!". Eram estas palavras a sua força: ditas com a certeza de um coração sábio, anos antes entres as ruínas de um templo.
Abraçou-o e acarinhou-o tentando transportá-lo novamente à lembrança do calor paternal que, tão violentamente, perdera. Ele, exausto, deixou-se proteger. Olhou-a, aninhou-se e dormiu. Ela, segura e confortada, deixou-se ocupar. Olhou-o, aconchegou-o ... e acreditou.

sábado, 18 de janeiro de 2014

"Homem falso e pendurado"

Não sendo pessoa de festejar os dias em que os anos avançam, gostava de manter a tradição das doze passas: talvez não pela crença da boa sorte, mais pelo hábito criado na infância. São mais fortes esses: será a naturalidade e genuidade da idade que as marcam? Enfim...devaneios.
Este ano substituiu um desejo por uma promessa: não viajar para países com penas pesadas, como a pena de morte por exemplo, para o tráfico de droga. Não é que fosse agarrado: lembrava-se apenas dos oportunistas das malas momentaneamente abandonadas. Dois meses depois recebe um telefonema:" vamos fazer o programa da Tailândia? Parece-me interessante." Respondeu ao convite sem pesos lá em cima, na consciência, com muitos sapos lá embaixo, no estômago: gostava de viajar, adorava, mas tanto?