Dirigiu-se decidida ao lar: sentou-se no escano - sem perceber a presença da figura que a observava ao canto, disfarçada na parede negra de alcatrão -, desembrulhou a singela criatura, entregando-a ao conforto do regaço. Foi breve o descanso, no entanto: Joana estremeceu bruscamente apertando, com forças desencorajadoras, o pequeno cordeiro que baliu com a força possível de uma leve faúlha. A voz embaciada e seca de emoções, perdidas nos muitos anos já corridos de gargalhadas e alegrias roubadas, que agora vestia de negro o acumular de rugas num corpo invejoso de um outro que, desafiadoramente - sem o saber -, se mostrava à sua frente exibindo a doçura e tranquilidade que um coração puro adorna. " Escusa-te a muitos afetos com esse, que em pouco tempo , seja em carne ou ainda a balir, vai render uns bons dinheiros. Está fraco agora, mas parece de boa raça. " Joana perdeu mais uma gota salgada de alma. Juntava-se a tantas outras derramadas desde que o seu querido pai - adotivo, mas que importa ! - a abandonara à sorte de uma madrasta - adotiva, e aqui sim, importa - que sempre fizera dela o seu Midas, ainda em vida de Leonildo - longe de saber o que se passava debaixo do seu teto (ai dela, Catarina, se ele soubesse!). Racionava-lhe o almoço e não lhe permitia o aquecedor no quarto nos invernos rigorosos: fosse para a cama quando mais não houvesse a fazer. A empregada da casa, já dona de setenta e cinco anos , era agora dama de companhia da Senhora com menores honorários : a pequena tinha bom corpinho e era nova, podia bem tratar das lides domésticas. As manhãs de sábado eram passadas no mercado, desde cedo, a vender a fruta e legumes da quinta; as galinhas e os ovos, cujo trato também era sua responsabilidade. "Pobre rapariga!", comentavam: " Leonildo fê-la princesa em vida, deixou-a borralheira na morte".
Hoje, porém, uma nova força derrubou a fragilidade da nossa heroína. Aquele pequeno exigia a sua coragem. Joana ergueu-se, invadiu os olhos de Catarina; fez-se guerreira armando-se das fraquezas do inimigo: conquistou a casa.
Viver é uma concessão. Saber viver um direito. Felicidade uma busca . Ser feliz é consequência de se aprender a viver . (Não me lembro do autor!)
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Medo
Olá. Vou ser breve e sucinta porque tenho um avião para apanhar.
Estou aqui porque a minha mãe acha que não é normal alguém, com trinta e cinco anos, ser expulsa de uma casa de banho por uma centopeia em corrida desenfreada. É verdade que sou uma medricas: sempre fui. Via uma aranha a correr pela parede abaixo, ao lado da minha cama, gritava e fugia; fazia mais uma asneira, pedia ao meu irmão para assumir as culpas: tinha medo do castigo que concerteza seria duplamente grave, já que tinha acabado de sair de um; era castigada na escola, mentia com medo das consequências em casa. Mentia, mentia, mentia …nem imagino qual terá sido o comprimento do meu nariz! Tudo porque tinha medo: de não agradar, de desagradar, de desiludir, de não iludir, de cair, de sofrer. Aconteceu um dia: decidi que queria ser uma pessoa melhor e naturalmente que a mentira – principalmente com esta taxa de frequência - não poderia, jamais, fazer parte do portefólio das características desse ser. Sabia que perder medos implicava arriscar e eu até era boa nisso: é verdade, medrosa, mas atrevida no risco. Quem diria! Comecei a fazê-lo, a arriscar. Se tinha medo de passar vergonhas e não ser aceite inscrevia-me como modelo de um concurso de cabeleireiros da universidade e ali, à frente de toda a gente, ficava com o aspeto mais ridiculo em que alguma vez me vira. Ajudou-me, anos mais tarde, quando alguém me ameaçou de passar pelo ridículo de apresentar aquele documento à Administração… “vamos lá, apresenta a situação que eu cá me desenrasco com o ridículo”. Muito e muito se passou na minha vida sobre o medo. Não caio no clichê de dizer que faço minha missão enfrentar todos os meus medos. Optei, antes, por conhecer o medo e conhecer-me com medo; decidir que medos tenho que enfrentar e quando os devo e quero enfrentar. Aprendi a sentir a tranquilidade, determinação ou o vazio dentro de mim que o podem acompanhar. Aprendi a ser verdadeira. Sim, essencialmente isso. Continuo a ter medo de sentir aranhas ou centopeias na minha pele: e outros. Devo pegar numa aranha e colocá-la no braço para assim me sentir mais forte? Não, pelo menos para já, não me interessa perder esse medo. Fica.
E eu vou, para o avião: espera-me a vida. Vocês divirtam-se por aqui e aprendam; essencialmente aprendam-se.
Estou aqui porque a minha mãe acha que não é normal alguém, com trinta e cinco anos, ser expulsa de uma casa de banho por uma centopeia em corrida desenfreada. É verdade que sou uma medricas: sempre fui. Via uma aranha a correr pela parede abaixo, ao lado da minha cama, gritava e fugia; fazia mais uma asneira, pedia ao meu irmão para assumir as culpas: tinha medo do castigo que concerteza seria duplamente grave, já que tinha acabado de sair de um; era castigada na escola, mentia com medo das consequências em casa. Mentia, mentia, mentia …nem imagino qual terá sido o comprimento do meu nariz! Tudo porque tinha medo: de não agradar, de desagradar, de desiludir, de não iludir, de cair, de sofrer. Aconteceu um dia: decidi que queria ser uma pessoa melhor e naturalmente que a mentira – principalmente com esta taxa de frequência - não poderia, jamais, fazer parte do portefólio das características desse ser. Sabia que perder medos implicava arriscar e eu até era boa nisso: é verdade, medrosa, mas atrevida no risco. Quem diria! Comecei a fazê-lo, a arriscar. Se tinha medo de passar vergonhas e não ser aceite inscrevia-me como modelo de um concurso de cabeleireiros da universidade e ali, à frente de toda a gente, ficava com o aspeto mais ridiculo em que alguma vez me vira. Ajudou-me, anos mais tarde, quando alguém me ameaçou de passar pelo ridículo de apresentar aquele documento à Administração… “vamos lá, apresenta a situação que eu cá me desenrasco com o ridículo”. Muito e muito se passou na minha vida sobre o medo. Não caio no clichê de dizer que faço minha missão enfrentar todos os meus medos. Optei, antes, por conhecer o medo e conhecer-me com medo; decidir que medos tenho que enfrentar e quando os devo e quero enfrentar. Aprendi a sentir a tranquilidade, determinação ou o vazio dentro de mim que o podem acompanhar. Aprendi a ser verdadeira. Sim, essencialmente isso. Continuo a ter medo de sentir aranhas ou centopeias na minha pele: e outros. Devo pegar numa aranha e colocá-la no braço para assim me sentir mais forte? Não, pelo menos para já, não me interessa perder esse medo. Fica.
E eu vou, para o avião: espera-me a vida. Vocês divirtam-se por aqui e aprendam; essencialmente aprendam-se.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
O meu planeta
A Terra... uma atleta universal, campeã de vitórias no poder de atração e descoberta de outros planetas; misturando, com requintes de paleta de Van Gogh, as cores que a cobriam nesta maquilhagem saborosa de tons laranja, verdes, azuis, brancos. Mercúrio desejava-a, sob os olhares ciumentos de Vénus. Pequeno planeta latino ( pela sua temperatura, entenda-se) envolvia-a apenas com um rápido vestido cintilante, crivado de estrelas picantes, para depois a guiar num intenso tango que terminava com a erupção de algum mega-vulcão terrestre. O que se seguia eram décadas de um planeta azul em estado perfeitamente comatoso de tanta exaustão, entregue aos complacentes cuidados dos eternos amantes desencontrados - o Sol e a Lua- que criavam à sua volta este campo terapêutico de amor inocente e genuíno. Remodelavam-lhe as formas. Adequavam os elementos construtores dentro das inúmeras espécies vivas. Preparavam-na para outro encontro.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
A praia
Ouço vozes nervosas... sinto mãos preocupadas e escorregadias segurarem o meu corpo, desfalecido. Os sons são-me estranhos. Onde estarei? O que querem de mim e porque me carregam assim? A minha imaginação afasta-me da ansiedade, chamando filmes antigos onde figuras canibais levavam o seu jantar pendurado num tronco ...serei eu o almoço de Domingo de alguma família feliz?
Detém-se o movimento e sou suavemente entregue à segurança de um chão tépido que sinto macio na pele. Silêncio ... O sol esconde-se por detrás de uma nuvem para me convidar a acordar; pisco os olhos que abrem preguiçosamente para me mostrarem o cenário que tento descobrir: lábios rasgados de orelha a orelha; olhos felizes lacrimejantes; mãos sobre os peitos aliviados . Quem são e ... quem sou eu para eles?
Abraçam-me: percebem que não me entrego aos seus braços e me mantenho hirto. Distanciam-se...e fico sozinho observando os seus olhares que, desencantados, fogem para se fixarem na minha retaguarda: sigo-os e encontro uma tela gigante, virgem. Quando lhes regresso já não me vêem: são estátuas vivas, brancas, de olhos cerrados. Aguardam...
Deixo-me cair na areia - sim, estou numa pequena praia rodeada de rochas negras disformes -, partilhando o horizonte com as águas valsantes do mar que, com o seu som meditativo, me abandona num labirinto de memórias no centro do qual sei que está a razão deste quadro. Atravessam-me como estrelas cadentes: mas consigo ainda ver-me em frente a um espelho, no meu quarto; lembro-me que pensava:" conheço-te, a minha personagem, mas não sei quem és: ator". Sinto a minha falta: das deixas indiscretas mas tão inocentes que faziam sorrir quem devia sentir-se afrontado...outra memória. Aparece agora, bem delineado, um sorriso maliciosamente infantil que me desafia, num teatral desinteresse, a segui-lo; hesito com a plena consciência de que nada me adianta esse tempo perdido...sei que o vou fazer - e faço: mergulho na escuridão; penso - " vai correr tudo bem".
Deixo o mar: encontrei a razão! Ergo-me no ar e encaro - na companhia do meu coração, agora cheio - o grupo que pacientemente me aguardava. Já não estou sozinho; algumas, poucas, estátuas acordaram e sei bem quem são - agora sei quem me são e quem lhes sou eu . O sorriso também lá está (sem rosto e a fazer-me saborear a mostarda ); guia-me até à tela onde vejo, pintada em aguarela, uma figura confiante, menino adulto vitorioso: sou eu, o ator.
Encontrei-te...
Detém-se o movimento e sou suavemente entregue à segurança de um chão tépido que sinto macio na pele. Silêncio ... O sol esconde-se por detrás de uma nuvem para me convidar a acordar; pisco os olhos que abrem preguiçosamente para me mostrarem o cenário que tento descobrir: lábios rasgados de orelha a orelha; olhos felizes lacrimejantes; mãos sobre os peitos aliviados . Quem são e ... quem sou eu para eles?
Abraçam-me: percebem que não me entrego aos seus braços e me mantenho hirto. Distanciam-se...e fico sozinho observando os seus olhares que, desencantados, fogem para se fixarem na minha retaguarda: sigo-os e encontro uma tela gigante, virgem. Quando lhes regresso já não me vêem: são estátuas vivas, brancas, de olhos cerrados. Aguardam...
Deixo-me cair na areia - sim, estou numa pequena praia rodeada de rochas negras disformes -, partilhando o horizonte com as águas valsantes do mar que, com o seu som meditativo, me abandona num labirinto de memórias no centro do qual sei que está a razão deste quadro. Atravessam-me como estrelas cadentes: mas consigo ainda ver-me em frente a um espelho, no meu quarto; lembro-me que pensava:" conheço-te, a minha personagem, mas não sei quem és: ator". Sinto a minha falta: das deixas indiscretas mas tão inocentes que faziam sorrir quem devia sentir-se afrontado...outra memória. Aparece agora, bem delineado, um sorriso maliciosamente infantil que me desafia, num teatral desinteresse, a segui-lo; hesito com a plena consciência de que nada me adianta esse tempo perdido...sei que o vou fazer - e faço: mergulho na escuridão; penso - " vai correr tudo bem".
Deixo o mar: encontrei a razão! Ergo-me no ar e encaro - na companhia do meu coração, agora cheio - o grupo que pacientemente me aguardava. Já não estou sozinho; algumas, poucas, estátuas acordaram e sei bem quem são - agora sei quem me são e quem lhes sou eu . O sorriso também lá está (sem rosto e a fazer-me saborear a mostarda ); guia-me até à tela onde vejo, pintada em aguarela, uma figura confiante, menino adulto vitorioso: sou eu, o ator.
Encontrei-te...
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
A perfeição das tuas imperfeições
Foi uma determinada rajada de vento que a acordou: no exato momento em que sonhava estar a ser envolvida por dois braços gigantescamente ternos. Preparava-se para voltar costas à natureza pouco oportuna - era madrugada ainda! -, quando, subtilmente, um rasgo de laranja melada com rosmaninho lhe despertou os recetores olfativos. Levantou-se e, com passos firmes de veludo - o soalho antigo de madeira rangia ( mas ela conhecia-lhe os segredos) e não queria acordar ninguém - , seguiu o aroma até se aproximar da cozinha que ainda acomodava alguém: havia luz. Ouviu a voz do pai - dirigida à mãe - num tom tão mágico que a paralisou por instantes; bem quietinha para conseguir lacrar bem dentro da sua caixinha de memórias aquele momento. Subitamente, durante uma breve apneia - para que nem o murmúrio da respiração perturbasse a concentração -, soltou-se a única frase ( e mesmo assim incompleta) de que se lembraria daquela noite: "...as tuas perfeitas imperfeições...". O que se seguiu não viu bem: a mãe costumava tapar-lhe os olhos quando imagens como aquela passavam na televisão; pelo que ela assim fez a si mesma e regressou ao seu sono...não, sem antes retirar a mensagem desta curta-metragem familiar: se o maior antagonista da perfeição - a imperfeição - podia ser perfeito; então ( ao contrário do que sempre se ditara) a perfeição existia. Deixou-se, assim, embalar na tranquilidade de quem encontrou o seu sentido: e o dela era a conquista das perfeições da sua vida.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
António Pezinhos
"Misca-te daqui ... marau endiabrado! Que já não sabe que mais há-de fazer este diacho! " - era assim o dia a dia do António Pezinhos.
Traquinas como só ele, tinha um invejável rol de diabruras : na semana anterior, sabendo que a reguada da professora Isilda seria inevitável, lembrara-se de untar as mão com azeite - a régua somente deslizou na sua mão; a dor, no entanto, foi bem inflingida na coxa da pobre senhora que, já próxima do esgotamento, se despediu no momento. Outra vez atiçou uma cobra que, baralhada, investiu sobre quem lhe pareceu ser o atacante ( nunca tal velocidade se tinha visto antes daquela corrida de Anita!); e para resumir os factos( sim, que não há tempo para tantos), há só mais aquele dia em que a meia dúzia de ovos que a D. Fátima - mãe de António e Gizela - pedira aos filhos para trazerem da mercearia, acabou servindo de champô à menina - tanto espicaçou o irmão ( que até estava apostado em contar até mil e acalmar-se: as nádegas ainda doíam do dia anterior! ), que, já irado, foi quebrando os ovos, um a um, como se um bolo estivesse a preparar.
Infelizmente para todos - que não havia ninguém naquela aldeia que não tivesse algum episódio com António -, ele era também dono da mais cativante e alegre gargalhada que alguma vez se ouvira por ali e arredores. A aldeia calava-se para a escutar e deixar-se enfeitiçar: Pezinhos era perdoado.
Traquinas como só ele, tinha um invejável rol de diabruras : na semana anterior, sabendo que a reguada da professora Isilda seria inevitável, lembrara-se de untar as mão com azeite - a régua somente deslizou na sua mão; a dor, no entanto, foi bem inflingida na coxa da pobre senhora que, já próxima do esgotamento, se despediu no momento. Outra vez atiçou uma cobra que, baralhada, investiu sobre quem lhe pareceu ser o atacante ( nunca tal velocidade se tinha visto antes daquela corrida de Anita!); e para resumir os factos( sim, que não há tempo para tantos), há só mais aquele dia em que a meia dúzia de ovos que a D. Fátima - mãe de António e Gizela - pedira aos filhos para trazerem da mercearia, acabou servindo de champô à menina - tanto espicaçou o irmão ( que até estava apostado em contar até mil e acalmar-se: as nádegas ainda doíam do dia anterior! ), que, já irado, foi quebrando os ovos, um a um, como se um bolo estivesse a preparar.
Infelizmente para todos - que não havia ninguém naquela aldeia que não tivesse algum episódio com António -, ele era também dono da mais cativante e alegre gargalhada que alguma vez se ouvira por ali e arredores. A aldeia calava-se para a escutar e deixar-se enfeitiçar: Pezinhos era perdoado.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Um novo estado...
Diz o dicionário de "des-": prefixo que exprime a ideia de separação ... ação contrária...intensidade, reforço.
Existe esta palavra - prefixada com "des"- que encontrei para definir um estado que não se caracteriza: por ser uma separação; por ser o reforço do que quer que seja; nem tampouco a ação contrária de outro estado. Trata-se, na realidade, de um estado entre estados: feliz e infeliz. O que digo, então de mim, quando não gozo do estado de felicidade; não me colocando,também, no polo oposto de infelicidade? Crio (se é que mo permite a língua portuguesa) a tal palavra - ainda não descrita no dicionário de que disponho -, que me permite estar, exatamente, como sinto estar: desfeliz.
Existe esta palavra - prefixada com "des"- que encontrei para definir um estado que não se caracteriza: por ser uma separação; por ser o reforço do que quer que seja; nem tampouco a ação contrária de outro estado. Trata-se, na realidade, de um estado entre estados: feliz e infeliz. O que digo, então de mim, quando não gozo do estado de felicidade; não me colocando,também, no polo oposto de infelicidade? Crio (se é que mo permite a língua portuguesa) a tal palavra - ainda não descrita no dicionário de que disponho -, que me permite estar, exatamente, como sinto estar: desfeliz.
Pelos olhos de uma esporta
Suaves e abençoadas mãos estas ... que nos salvaram de um temível encontro com as invernosas águas do Tua. Carreguei por dois dias - dois tristes e infindáveis dias - o choro cansado de um bebé: comigo abandonado naquele riacho por um par de mãos ( mãos, outra vez) nervosas, que num murmúrio engolido nos entregou aos cuidados divinos. Fui bruscamente separada do ramo de rosas secas que em mim repousava e arrancada do meu descanso sobre a longa mesa da cozinha: divisão daquela mansão que, agora agitada, outrora me recebera pelas mãos ( sempre entre mãos) de um muito agradecido artesão. Passara a noite toda de volta de mim, entrelaçando as centenas de folhas de junco que colhera junto do riacho ( sim, o mesmo); comprometera-se consigo mesmo a terminar esta sua peça - a esporta: eu - pela manhã, para logo me oferecer a D. Isabel que me estimaria tanto como ele a estimava. Afinal de contas: salvara-o do penoso sofrimento de ver chorar de fome o seu querido Matias que encontrara no rio, anos antes, ainda bebé; e que acolhera na sua casa, apesar das parcas condições.
domingo, 17 de novembro de 2013
Tropear com botas de montar
Discutia com Natália, a governanta, os últimos detalhes para o jantar dessa noite que trazia distintos convidados à residência da família Oliveira Afonso. Carmen era uma excelente anfitriã (seguramente influenciada pelas suas raízes transmontanas); recebia, fosse quem fosse, com o mesmo caloroso empenho: apenas com o intuito de ver a genuína satisfação estampada nos rostos dos presentes. Ainda que o bom gosto do serviço fosse indiscutível: era , de facto, a sua alegria e entrega que tornavam sempre irrecusável qualquer convite.
Embrenhadas na sua tarefa, foram subitamente surpreendidas pelo tropear barulhento e inconstante que vinha do corredor; à sua frente surgia uma vitoriosa, ainda que trapalhona, Cândida - olhos azuis esbugalhados, perdidos entre os muito desgrenhados cachos louros - que, determinada e no cimo dos seus orgulhosos 4 anos, afirmou: - "vou ser tratadora de cavalos!".
Para tornar, ainda mais, convincente a sua declaração decidira calçar as botas (enormes!) de montar do pai ; situação que deixou as suas espectadoras com grande dificuldade em manterem a seriedade que tal manifesto exigia: a pequenina tinha trocado a lateralidade das botas!
Embrenhadas na sua tarefa, foram subitamente surpreendidas pelo tropear barulhento e inconstante que vinha do corredor; à sua frente surgia uma vitoriosa, ainda que trapalhona, Cândida - olhos azuis esbugalhados, perdidos entre os muito desgrenhados cachos louros - que, determinada e no cimo dos seus orgulhosos 4 anos, afirmou: - "vou ser tratadora de cavalos!".
Para tornar, ainda mais, convincente a sua declaração decidira calçar as botas (enormes!) de montar do pai ; situação que deixou as suas espectadoras com grande dificuldade em manterem a seriedade que tal manifesto exigia: a pequenina tinha trocado a lateralidade das botas!
O pangaio de Porrais
Hernâni era assim: um pangaio. O mandrião lá da aldeia: nunca se prestava a nada, escapulindo-se a qualquer ameaça de trabalho ... um inútil para a comunidade que se pavoneava de costa direita; orgulhoso da vida de refestelo permanente que conseguira anos atrás.
Cândida - moça delicada na estatura, imensa na beleza - fora trazida pelos seus tios, seus únicos familiares, para Porrais após a trágica morte dos pais. A sua natural candura - cedo evidente no nascimento e que decidiu, logo aí, o seu nome - conquistara a simpatia de todos os criados da casa; como Maria, a romântica e imaginativa Maria, que acompanhava todos os seus cozinhados com uma história de amor - seria este o motivo pelo qual tanto se suspirava naquela casa? -; enchendo a cabeça da menina de desejos de encontro com o seu príncipe.
Apesar das vãs tentativas da família e dos desesperados conselhos de Maria (que, agora, provocava choros angustiados em todos os que provavam os seus pratos regados de lágrimas de culpa) para o impedir: não foi difícil para Hernâni conquistar Cândida e com ela a vida que tanto almejara.
Cândida - moça delicada na estatura, imensa na beleza - fora trazida pelos seus tios, seus únicos familiares, para Porrais após a trágica morte dos pais. A sua natural candura - cedo evidente no nascimento e que decidiu, logo aí, o seu nome - conquistara a simpatia de todos os criados da casa; como Maria, a romântica e imaginativa Maria, que acompanhava todos os seus cozinhados com uma história de amor - seria este o motivo pelo qual tanto se suspirava naquela casa? -; enchendo a cabeça da menina de desejos de encontro com o seu príncipe.
Apesar das vãs tentativas da família e dos desesperados conselhos de Maria (que, agora, provocava choros angustiados em todos os que provavam os seus pratos regados de lágrimas de culpa) para o impedir: não foi difícil para Hernâni conquistar Cândida e com ela a vida que tanto almejara.
sábado, 16 de novembro de 2013
Arroubada com o novo homízio! :)
Entregou-se, de corpo e alma, ao arroubo trazido pela aventura em que, agora, embarcava. Passaram-se meses sem saber o que fazer. Decidira, sim: e então? Porque esperava a vida para começar a acontecer? Este momento: esperava aquela palavra ; para então a soltar nesta viagem que seria o seu homízio neste novo ciclo.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Escassilhos
De vez em quando acontece-nos isto: escassilhamo-nos. E não é raras vezes: um emprego que afinal não é; alguém que não é O Alguém; um amigo que vai e não volta ... ilusões ou factos reais - sim, porque um facto também pode ser ilusório - que nos quebram. Felizmente que fomos dotados de capacidades notórias de auto-colagem que, se bem feita, é mais eficaz e duradoura que qualquer aplicação com cola do diabo; e, ao contrário desta, faz de nós seres mais estáveis. Delicadamente - porque, apesar de tudo, somos frágeis elementos deste universo - unimos escassilho a escassilho e reconstruímos a alma. A cola, essa, faz-se de passado e uma simbiose presente de razão e emoção.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Quiara
Entrei na sua casa - que guardava zelosa - e deixei-me ficar a olhá-la; aproximou-se , ainda desconfiada e intrigada, para me cheirar: para me conhecer as intenções. Aceitou-me, de orelhas descaídas, segura, sem sinais de perigo aparente - o odor - tranquilizou.
Uma figura elegante: se era uma princesa! Delicada e discretamente distante, emocionalmente equilibrada, sobressaía na matilha de três; habituada à disciplina e obediência - típica escola suíça - estranhava os companheiros; tão nervosamente inquietos, teriam medo?
Crescemos juntas ( numa entrega mútua), brincámos e mimámo-nos desinteressadamente - como boas amigas ...
Deixou-me, sem avisar, apenas com um olhar. Acompanhavam-me ao portão: olhos castanhos redondos e vivos, inquisidores determinados e hipnóticos , perguntavam se voltaria; acontecia, quando ia de férias, que o sol ia e vinha - assim contava o tempo -, os carros passavam sem pararem, mas eu escondia-me, não chegava: hoje abri o portão, ela dormia.
Descansava para sempre.
Uma figura elegante: se era uma princesa! Delicada e discretamente distante, emocionalmente equilibrada, sobressaía na matilha de três; habituada à disciplina e obediência - típica escola suíça - estranhava os companheiros; tão nervosamente inquietos, teriam medo?
Crescemos juntas ( numa entrega mútua), brincámos e mimámo-nos desinteressadamente - como boas amigas ...
Deixou-me, sem avisar, apenas com um olhar. Acompanhavam-me ao portão: olhos castanhos redondos e vivos, inquisidores determinados e hipnóticos , perguntavam se voltaria; acontecia, quando ia de férias, que o sol ia e vinha - assim contava o tempo -, os carros passavam sem pararem, mas eu escondia-me, não chegava: hoje abri o portão, ela dormia.
Descansava para sempre.
domingo, 10 de novembro de 2013
Outro momento ...
"What about you: is there someone else? - No ... but there is the dream of someone else".
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Momentos
Hoje alguém me disse :" ninguém é feliz neste mundo". Ele não sabe - porque eu não lhe disse - mas não é verdade: eu sou.
E não sou única.
E não sou única.
Esquisito
Sim, é verdade... fizeram-me assim: esquisito. Parece que herdei o gene do lado da mãe; segundo a minha avó paterna o meu pai era atinadinho, normalzinho e suportável até ao dia em que conheceu a Margarida - minha mãe.
Cresci a ouvir histórias de antepassados esquisitos; de tal maneira que a partir de certa geração - a que teve também maior número de elementos (incluiu os anos 60) - todos receberam como nome do meio: Esquisito. Curioso como sou - razão pela qual fui alcunhado de Esquisitato ( Esquisito+chato) logo na escola primária - fui auscultando a família para tentar compreender o motivo de tal alcunha. Concluí que todos tinham questionado padrões sociais, estereótipos...enfim, não se limitaram a dizer porque todos diziam; a fazer porque todos faziam. Escusado será dizer que, por esse motivo, alguns sofreram represálias pouco simpáticas: fogueiras, cordas, balas, horas de joelhos no chão, palmatórias... Felizmente, para mim, os tempos mudaram: e as minhas represálias ficam-se por saber que há quem se incomode ou se canse comigo porque questiono o "normal"; porque resolvo virar à esquerda quando todos vão para a direita. Aguento-me.
E, para fazer jus ao nome, deixo esta questão: pensar que incomodo .... devia?
Cresci a ouvir histórias de antepassados esquisitos; de tal maneira que a partir de certa geração - a que teve também maior número de elementos (incluiu os anos 60) - todos receberam como nome do meio: Esquisito. Curioso como sou - razão pela qual fui alcunhado de Esquisitato ( Esquisito+chato) logo na escola primária - fui auscultando a família para tentar compreender o motivo de tal alcunha. Concluí que todos tinham questionado padrões sociais, estereótipos...enfim, não se limitaram a dizer porque todos diziam; a fazer porque todos faziam. Escusado será dizer que, por esse motivo, alguns sofreram represálias pouco simpáticas: fogueiras, cordas, balas, horas de joelhos no chão, palmatórias... Felizmente, para mim, os tempos mudaram: e as minhas represálias ficam-se por saber que há quem se incomode ou se canse comigo porque questiono o "normal"; porque resolvo virar à esquerda quando todos vão para a direita. Aguento-me.
E, para fazer jus ao nome, deixo esta questão: pensar que incomodo .... devia?
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Caniço e Pome
João Caniço e Tomás Pome: irmãos. A cara chapada um do outro, nas devidas idades, diziam os pais; Caniço a cara do pai, Pome a cara da mãe - diziam outros. A verdade é que as suas pessoas não podiam ser mais diferentes. Caniço - alcunha que lhe vinha do porte esguio - era exímio cantor clássico: o típico menino de coro, também jogador de golf. Pome - porque não dizia os "f's" nas tenras idades - preferia o movimento da bateria e era o capitão da equipa de rugby: a grandeza da sua estatura igualava a grandeza de cavalheirismo. Mas eram de facto irmãos e a sua união era forte e óbvia: fosse pela manhã quando se separavam com o aperto de mãos e as palavras de incentivo; ou quando eram ofertados com alguma guloseima, que deveria sempre ser em duplicado. Também havia as birras, claro - e as invejas e as queixinhas. À noite, no entanto, Pome - o mais novo - queria sempre dormir no quarto de Caniço - orgulhoso por ter sido o escolhido herói do seu pequenino.
De viagem por um bolo de laranja
Deixem-me contar-vos como viajar, pelas pessoas e pelo mundo, enquanto se faz um bolo de laranja ( ou qualquer outro sabor, visto que tudo vem de algures e foi tocado por alguém).
Preparada a mistura básica, junto a laranja em raspa e sumo e vejo-me de volta à selva africana (bafejada pela sorte segundo a guia local): ouço as longas conversas noturnas dos hipopótamos; num olhar rápido e distraído encontro um leão; despeço-me da Àfrica do Sul com um admirável vislumbre, ao longe sobre um ramo de árvore, do leopardo.
Volto a Portugal; com o azeite ( o tesouro de Trás-os- Montes) a lembrar-me manhãs frias e chuvosas de inverno aquecidas pelo tagarelar divertido de homens, vergastando as oliveiras, e mulheres, cuidadosamente selecionando do chão as melhores azeitonas.
E por falar em calor; rumo agora até à Costa Rica ( decido que o chocolate conforta a acidez dos ingredientes anteriores), onde me encanto com a doçura dos costa riquenhos enquanto ajudo na apanha de grãos de cacau.
Delicio-me com tomas diárias e frequentes de chocolate quente, ambicionando atingir o mesmo grau de afetuosidade dos locais.
Um leve toque de canela transporta-me para os mercados de Istambul (barulhentas combinações aromáticas) e perco-me por entre pós e texturas coloridas; com os sentidos inebriados deixo frustrado qualquer vendedor que comigo tenta iniciar um regateio.
Acordo, na minha cozinha aquecida pelo calor do forno, a tempo de levar esta cremosa mistura numa aventura pela alquimia do deserto.
AXIA
Era ali, na marina, que todos os dias procuravam novas pinturas deixadas por zelosos e bravos marinheiros; motivo de conversas fantasiosas sobre destinos e embarcações.
Naquele dia foi uma estranha bandeira que as atraiu; sobre um fundo azul luzia a estrela arpeando os curiosos com os seus raios, numa mistura de tons laranja e branco.
Foi certeiro o arpão nestes três espíritos aventureiros: ergueram-se olhares mastros acima; admiraram-se linhas e cores; despertaram-se desejos de partida mar fora, vencendo ventos e imponentes vagas ao seu comando.
Estendia-se, esguio, pelo deque; revelando na proa o nome ladeado por dois cavalos marinhos discretamente desenhados com a cor verde: Axia.
Ao lado, sentadas sobre os calcanhares, duas meninas, com as caras perdidas entre caracóis despenteados, deixavam a pintura do seu veleiro no chão da marina; contara-lhes o pai que, se o fizessem, a viagem seria sempre abençoada pela sorte.
Percebendo-se observadas sorriram e convidaram as três amigas a juntarem-se-lhes na sua tarefa; seguiram-se horas de histórias de birras e alegrias, temporais, golfinhos e baleias, iniciadas nas ilhas Marshal meses antes.
Interrompidas pelo comandante; desfizeram o grupo e partiram, felizes por mais uma aventura.
Naquele dia foi uma estranha bandeira que as atraiu; sobre um fundo azul luzia a estrela arpeando os curiosos com os seus raios, numa mistura de tons laranja e branco.
Foi certeiro o arpão nestes três espíritos aventureiros: ergueram-se olhares mastros acima; admiraram-se linhas e cores; despertaram-se desejos de partida mar fora, vencendo ventos e imponentes vagas ao seu comando.
Estendia-se, esguio, pelo deque; revelando na proa o nome ladeado por dois cavalos marinhos discretamente desenhados com a cor verde: Axia.
Ao lado, sentadas sobre os calcanhares, duas meninas, com as caras perdidas entre caracóis despenteados, deixavam a pintura do seu veleiro no chão da marina; contara-lhes o pai que, se o fizessem, a viagem seria sempre abençoada pela sorte.
Percebendo-se observadas sorriram e convidaram as três amigas a juntarem-se-lhes na sua tarefa; seguiram-se horas de histórias de birras e alegrias, temporais, golfinhos e baleias, iniciadas nas ilhas Marshal meses antes.
Interrompidas pelo comandante; desfizeram o grupo e partiram, felizes por mais uma aventura.
Sobre o avô Armando
Susana, inquieta nas escadas, esperava-o. No Santo António, como sempre, havia prenda! Conhecia-o bem, o avô do chapéu. A chave, nervosa na fechadura, denunciou-o. Armando abraçou-a, sorrindo vitorioso. Conquistava mais um, de muitos, retalho do céu. Sabendo o que queria, sem demora, desinquietou-a.
Desaparecida ...
Já há algum tempo que não publico nada.
Comecei um curso de escrita criativa, acho que há dois meses; vou aproveitar os trabalhos de casa e publicá-los. Sempre vou enchendo o blog.
Comecei um curso de escrita criativa, acho que há dois meses; vou aproveitar os trabalhos de casa e publicá-los. Sempre vou enchendo o blog.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Um doce ...
"Porque é que saíste? Eu queria estar contigo."
E assim, um pequenino deixou-me sem conseguir explicar porque tinha ido viajar no período de tempo em que ele podia estar comigo. Entrou-me pelo quarto de manhã cedo para me acordar com a sua malandrice própria acompanhada de muita risota. Inesperadamente ficou sério, inclinou-se ligeiramente e baixinho fez-me aquela pergunta e justificou-a da melhor maneira possível.
Meu doce David.
E assim, um pequenino deixou-me sem conseguir explicar porque tinha ido viajar no período de tempo em que ele podia estar comigo. Entrou-me pelo quarto de manhã cedo para me acordar com a sua malandrice própria acompanhada de muita risota. Inesperadamente ficou sério, inclinou-se ligeiramente e baixinho fez-me aquela pergunta e justificou-a da melhor maneira possível.
Meu doce David.
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